domingo, 4 de março de 2012

Os Interesses Instalados Não Querem A Reforma Administrativa!




Ao longo dos anos, vários analistas políticos criticaram a situação, de aparente promiscuidade, entre os interesses instalados a nível local e os executivos das autarquias respectivas. Paralelamente às criticas dos analistas houve várias denuncias por parte das populações, nos municípios atingidos, e até por um ou outro político. Apesar disso, os casos de denuncia de corrupção continuaram e atingiram tal amplitude, na opinião pública,que estavam a minar a credibilidade dos partidos políticos, particularmente, do PS e do PSD.

Parece, contudo, que só perante os casos escandalosos de Fátima Felgueiras, Isaltino Morais, Valentim Loureiro, entre outros, os partidos decidiram agir e propor alterações à legislação autárquica. Todavia, o ping pong tradicional dos partidos do arco governamental, que defendem uma coisa na oposição e o seu contrário no governo, tem impedido que se façam as reformas indispensáveis. Perante a pressão da opinião pública e publicada, conseguiu-se aprovar a Lei 46/2005, sobre a limitação de mandatos dos executivos autárquicos, embora não contemplasse, de imediato, os mandatos dos vários "dinossauros" em funções.

Entretanto, à medida que nos aproximamos das eleições autárquicas de 2013, os grupos e interesses instalados começaram a mover-se para impedir a aplicação da lei de limitação de mandatos. Todos os argumentos servem. Uns afirmam que não respeita os direitos constitucionais. Outros defendem que só deveria ser aplicado se a lei se fosse aplicada a todos os cargos políticos. Agora o PS e o PSD, interpretam a lei, como vinculando apenas os mandatos no mesmo município! Se, depois de tudo o que se escreveu a defender a reforma e se afirmou no Parlamento a justificar as virtudes da renovação de dirigentes, não se impedir os autarcas de se recandidatar, a maioria dos actuais dirigentes políticos perdem o resto de credibilidade que ainda possam deter.

Em simultãnio com este escândalo político, outro começa a ganhar forma e consistência, neste caso, com a responsabilidade de todos os partidos representados na Assembleia da República. No memorando da Troika, negociado e assinado pelo PS, PSD e CDS, está estabelecido a obrigatoriedade de reformar o sistema autárquico. Entre as várias alterações a implementar, uma obriga a diminuir, substancialmente, Municípios e Freguesias. Aparentemente, todos os partidos do arco governamental concordavam com a reforma, até porque, vinha ao encontro de propostas anteriormente feitas mas nunca concretizadas.

Para grande surpresa de quem conhecia o conteúdo do memorando, o "Livro Verde", sobre a reforma administrativa, apresentado pelo governo, apenas contemplava a diminuição do número de freguesias. Quanto aos municípios, admitia fusões onde, e se, houvesse acordo! Perante as adulterações do Memorando, seria de prever que o PS contestasse porém, limitou-se a criticar a proposta, por "não servir as populações e por ser feita a régua e esquadro no Terreiro do Paço".

Após a divulgação do "Livro Verde" começou a contestação dos autarcas, comandados pelo PCP, que nunca aceita qualquer reforma. A vaia monumental, feita ao Ministro Miguel Relvas, na Convenção Autárquica no Algarve é uma consequência daquela instrumentalização mas, também, das movimentações discretas dos vários lóbis ligados ao poder autárquico.

Entretanto, à medida que os autarcas das freguesias vão aumentando as críticas, afirmando que só com a diminuição dos municípios é que poderia haver economias de escala, que são eles que estão mais próximos das populações, alguns Presidentes de Câmara, começam a condenar a reforma no seu conjunto. Perante estes e outros factos e, certamente, pela posição que o PS vinha assumindo, de não apresentar contra propostas, o governo deixa cair o "Livro Verde" e apresenta nova proposta de reforma administrativa.

Como seria previsível, a nova proposta de Lei, que já foi votada na generalidade na Assembleia da República, continua a não contemplar a obrigatoriedade de diminuição de municípios e, contrariamente à primeira versão, propõe a diminuição e fusão de grandes freguesias nas áreas metropolitanas, ao mesmo tempo que permite a manutenção de pequeníssimas freguesias no resto do país. Independentemente da justiça associada ao novo método, a reforma proposta, é claramente favorável ao PSD e, apesar disso, o PS continua sem apresentar uma proposta alternativa, como seria seu dever e para respeitar o Memorando que negociou e assinou.

Para quem, como eu, defende há muitos anos uma reforma do sistema autárquico e não apenas a reforma administrativa, estes acontecimentos não surpreendem. Para as outras pessoas, a manifestação convocada pela ANAFRE, com apoio explícito de muitos municípios, é mais uma demonstração que não querem qualquer tipo de reforma administrativa! No nosso país, quase todos concordam, que os Organismos do Estado precisam, urgentemente, de ser reformados. Todavia, cada sector ou organismo, de per si, considera sempre que as reformas só são necessárias para os outros. No primeiro governo de Sócrates a situação era idêntica. Nas sondagens, a esmagadora maioria era favorável e apoiava as reformas. Porém, cada sector ou camada profissional, quando era atingido pela reforma, lutava por todos os meios para a impedir e quando não o conseguia, tentava sabotar a sua aplicação!

Em resumo, se apesar da grave crise financeira em que nos encontramos, do Memorando que assinamos com os nossos credores e da situação excepcional de estarmos sob tutela, não se fizerem todas as reformas acordadas com a Troika, inclusive a reforma administrativa autárquica, a continuação da nossa participação na UE ficará em causa e o país ficará com o futuro hipotecado, por causa da corrupção e dos interesses instalados, porque as corporações capturaram o Estado e os partidos são dominados pelo poder autárquico e por toda a espécie de organizações secretas, discretas e afins!




sexta-feira, 2 de março de 2012

Pequena Frase Com Grande Significado!




No Jornal de Negócios, do dia 1 de Março, Pedro Santos Guerreiro, na parte final do seu editorial escreve: "Seria preferível cortar os brutos salários do que os salários brutos. Mas assim está a acontecer. E à bruta." Tanto quanto sei, não é um Homem de esquerda, não tem passado revolucionário e, certamente, não é por acaso que dirige um jornal identificado com o Capital.

Defender o corte dos "brutos salários", num país tão desigual como é o nosso, é não só uma opinião justa, como é relevante e raramente assumida, em particular, por pessoas afectas aos interesses do capital. São muitas as pessoas, que escrevem e falam sobre os baixos salários dos trabalhadores portugueses. Todavia, são poucos os comentários, que relacionam os baixos salários, como uma consequência, da existência de "brutos salários".

São vários os artigos, aqui publicados, em que tenho abordado o escandaloso caso, que constitui a situação das desigualdades sociais, no nosso país. Tenho afirmado, como muitos o fazem, que a desigualdade na repartição da riqueza produzida, entre o capital e o trabalho, não para de aumentar a favor do capital. No entanto, não é apenas as desigualdades, atrás referidas, que nos colocam na cauda da Europa é, também, as desigualdades de salários e vencimentos, no mundo do trabalho, entre gestores e quadros por um lado e os trabalhadores por outro. Este facto raramente é referido.

É neste contexto, que a opinião de Pedro Santos Guerreiro, é relevante. Afirmar que seria preferível, cortar os "brutos salários" , só pode significar o reconhecimento, de que no nosso país
há vencimentos escandalosos. Era e ainda é, o caso do Governador do Banco de Portugal, de gestores de empresas públicas, de institutos e outros organismos do Estado e das Autarquias, que tendo anteriormente, vencimentos próximos do Primeiro Ministro passaram, progressivamente, a ganhar o dobro e o triplo, nalguns casos mais, no espaço de pouco mais que uma década!

Naturalmente, esta realidade não é exclusiva do sector público. Também no sector privado, aquelas desigualdades existem. Como também há Quadros a mais, em comparação com o número de trabalhadores. Em muitas empresas e particularmente nas empresas e institutos públicos, a pirâmide organizacional chega a ser invertida, como consequência de tantas chefias, de tanta vontade de mandar, de tanta incompetência e incontrolável corrupção!

Perante estes factos indiscutíveis, (que qualquer interessado pode confirmar através das estatísticas, que vários estudos europeus tem confirmado, que até o Embaixador Americano criticou, referindo-se "aos Generais sentados"), seria natural que as organizações sindicais e os auto nominados partidos de esquerda, fizessem uma critica cerrada contra as desigualdades e apresentassem propostas e programas alternativos. Porém...é melhor "lutar" contra a austeridade, contra os governos, contra o FMI, ou seja, objectivamente lutar pela manutenção dos interesses instalados, a chamada classe média, à custa das vítimas das desigualdades.

Como é possível compreender, que tanta gente critique os Alemães, como responsáveis da situação em que vivemos, quando eles não são vítimas de desigualdades próximas das nossas, quando as empresas Alemãs, em Portugal, conseguem ser competitivas no plano internacional, apesar de pagar dos mais altos salários? Porque a Elite portuguesa omite as razões e os factos, culpando apenas os trabalhadores! Porquê são feitos tantos elogios à Auto Europa e não é explicado a razão do seu sucesso? Porque lá há organização, faz-se formação contínua, as chefias são mínimas, os quadros são os indispensáveis e...trabalham, os gestores trabalham em equipa para objectivos definidos e são responsáveis pelos resultados...que tem que dar lucros!

Em suma, o que a Auto Europa e outras empresas internacionais instaladas em Portugal demonstram, é que os trabalhadores portugueses, quando bem organizados e dirigidos, são produtivos como os melhores da Europa. Quanto à maioria da Elite portuguesa...gosta de mandar...não sabe dirigir e odeia trabalho e organização, mas é exímia, na exploração e na manutenção das desigualdades sociais! Será por mero acaso, que em três décadas , tivemos que recorrer três vezes ao FMI, apesar de termos recebido dezenas de milhares de milhões de Euros, para nos reorganizar e modernizar, desde que nos integramos na União Europeia?

domingo, 29 de janeiro de 2012

Carvalho Da Silva, CGTP E Suas Responsabilidades



A realização do Congresso da CGTP, que ocorreu em Janeiro, levanta algumas questões que merecem reflexão. Uma, a eleição de um ortodoxo, para Secretário Geral. Outra, os rasgados elogios, que as mais várias personalidades políticas e empresariais, jornalistas e meios de comunicação social, fizeram a Carvalho da Silva. Finalmente, a omissão da responsabilidade, que também a CGTP/PCP tem na situação em que o país se encontra e, particularmente, nas desigualdades económicas e sociais existentes, dentro do mundo do trabalho.

A eleição esperada e programada do ortodoxo Arménio Carlos, traduz a derrota das correntes políticas e sindicais minoritárias, dentro da CGTP, acabando com as pretensões dos bloquistas. Significa que o PCP está disposto a correr o risco de "queimar" a central sindical, para tentar impedir que as medidas do governo na função pública, nas autarquias e no sector público, possam aniquilar os seus quadros sindicais e destruir a sua base social de apoio. Representa uma rotura com a "linha conciliadora" de Carvalho da Silva, apostando na radicalização das lutas políticas e sindicais, tentando capitalizar, ao máximo, o descontentamento social, por causa da política de austeridade, neoliberal, e ganhar espaço e apoio para obrigar o governo a manter o "statu quo".

Quanto aos elogios feitos a Carvalho da Silva, tem muitos significados. Desde logo, permite ao patronato que odeia organizações sindicais, afirmar que com ele era "difícil" fazer acordos, mas com a nova liderança nada será possível. Para os poucos empresários que temos, as declarações de apoio e respeito pelo Ex Secretário Geral da CGTP são genuínas, eles sabem que a retórica "comunista" de reivindicação e luta, acabava sempre por ir ao encontro dos seus interesses, desde que eles mantivessem os lugares e algumas benesses para os quadros sindicalistas.

Mais surpreendente, ou talvez não, são as tentativas de separar Carvalho da Silva do PCP, a glorificação da sua capacidade intelectual, que lhe terá permitido "impor" uma linha sindical própria. Agora, segundo outros, irá poder desempenhar o papel "de líder federador das esquerdas", como possível e desejado candidato à Presidência da República, comparando-o a Lula da Silva, mas ressalvando que este fora apenas operário, enquanto ele já é Prof Doutor!

Compreende-se, que os Bloquistas desiludidos, após a esmagadora derrota eleitoral, queiram um novo líder. É possível, que os "indignados da geração rasca", que apenas tem conseguido criar centenas de micro organizações, sem impacto na sociedade, pensem que o Carvalho da Silva os possa organizar, "pedindo" de empréstimo os quadros activistas da CGTP, para trabalhar, enquanto eles continuam a beber e a discutir o sexo dos anjos. Todavia, acreditar na capacidade de LIDERANÇA, de um homem que apenas aplicou e seguiu directivas, significa não conhecer como funciona o PCP e não compreender que não é possível orientar as esquerdas, com ideias e políticas que a história já condenou!

Quanto à omissão da responsabilidade da CGTP, só aparentemente não é compreensível. Desde logo, apesar de se considerar como a principal força sindical, não conseguiu ou não quis, impedir que a distribuição da riqueza produzida continua-se a aumentar para o capital, em prejuízo do trabalho. Depois, apoiando-se nas camadas mais esclarecidas e reivindicativas da sociedade, fomentou a defesa intransigente dos instalados, nas empresas públicas e na função pública, à custa dos trabalhadores e operários menos qualificados, particularmente, dos jovens que iam entrando para o mercado do trabalho, o que contribuiu para o aumento das desigualdades salariais e sociais.

Finalmente, recusou-se a negociar até ao limite, qualquer alteração da lei que permiti-se polivalência e, ou, flexibilização para os que tinham contratos ou acordos de trabalho, ao mesmo tempo que nada fez para que centenas de milhares de imigrantes não desvalorizaram os salários dos trabalhadores portugueses menos qualificados , sem direitos, enquanto apoiava os quadros, nas limitações que impunham à integração dos quadros imigrantes, e na generalização de estágios para Licenciados, como forma de atrasar a sua entrada na concorrência com as "corporações"

Perante estes factos, é natural que a "classe média", as "corporações" e os representantes do patronato, únicos com acesso aos meios de comunicação social,não sintam necessidade de referir tais omissões. Quanto aos trabalhadores, vítimas destas políticas sindicais, poucos já se interessam pelo sindicalismo e os média também não lhe dão importância.

A política sindical da CGTP/PCP, nunca serviu os interesses dos operários e trabalhadores menos qualificados. Para o conseguir, quando havia MILITÂNCIA SINDICAL, sabotou os Sindicatos Verticais de Classe, (método de organização de que sou autor, ainda que o caderno fosse publicado pelas edições "A Verdade"), permitindo que os quadros e trabalhadores de serviços controlassem os "Sindicatos dos Trabalhadores", isto é, os operários. Onde não tinham força ou maioria, fomentaram as Comissões de Trabalhadores, para melhor sabotar as lutas operárias e a sua organização sindical.

Foi esta política sindical da CGTP, dirigida por Carvalho da Silva mas sempre controlado pelo PCP, e a política deste partido "do quanto pior melhor", apesar de acabar sempre por defender aquilo que antes condenou, quer as alterações às leis laborais, quer as alterações à Constituição da República, que contribuiu para a crise em que nos encontramos, que continuemos na cauda da UE, que as chefias e as corporações da chamada classe média, tenha chegado a ter médias de vencimentos e regalias superiores à média europeia e os operários, trabalhadores menos qualificados e os jovens, tenham os mais baixos salários da Zona Euro, como provam vários estudos divulgados nos últimos anos.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Como Cavaco Silva Serviu O Governo E Os Instalados!



Terá sido por mero acaso, que as declarações de Cavaco Silva, sobre a sua reforma, se transformaram em tema de discussão, de todos os portugueses, durante vários dias? Não!

A forma e a rapidez como toda a comunicação social, afecta ao governo e aos interesses económicos, transformou uma declaração absurda e reveladora da falta de personalidade de um Presidente da República, teve por objectivo desviar as atenções do povo, de factos muito mais importantes!

Primeiro, servir o governo, ao procurar esconder da opinião publica, o "terramoto" social que constituiu o acordo social, que apesar de imposto pela Troika a direita, no poder, aproveitou para retirar toda e qualquer segurança no trabalho, com excepção para alguns instalados.

Segundo, quiseram apenas circunscrever a discussão, à reforma do Cavaco e à sua falta de sensibilidade social, quando o que deveria ser discutido era o escândalo das reformas douradas, como as do presidente da república, que são milhares, do facto de haver pessoas com duas e três reformas do Estado e, ainda, de muitas das reformas douradas, atribuídas nos últimos anos, serem o resultado directo de auto promoções, dos membros das "corporações" que capturaram o Estado.

Terceiro, permitir que a generalidade dos portugueses, não prestassem a atenção devida à situação económica e financeira, principalmente, o aumento dos juros da dívida pública para níveis recordes, porque antes atribuíam toda a responsabilidade a Sócrates e afirmavam que, com a mudança de governo, os juros baixariam!

Em suma, o Governo pode estar grato a Cavaco Silva. Os instalados no sistema, continuam a receber subsídios, subvenções vitalícias e reformas escandalosas. Os culpados da situação em que o país se encontra, entre os quais os seus amigos do BPN, Isaltino e Duarte Lima, continuarão impunes, porque a Justiça é uma miragem e o Direito só serve os ricos. Entretanto, os média vão entretendo o pagode com fado, Fátima, futebol e... telenovelas!!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Após Vários "Abalos Sísmicos"Intimidativos, o Terramoto Social Aconteceu!




Após vários abalos "sísmicos" intimidativos, o terramoto social aconteceu.Com epicentro na Europa atingiu Portugal e provocou a destruição do que restava dos direitos do mundo do trabalho, contemplados no Código do Trabalho e na Constituição da Republica Portuguesa. Da mesma maneira que a deslocação das placas tectónicas provocam terramotos e maremotos, também as movimentações e deslocalizações de capital e de pessoas pelo mundo,levam a grandes terramotos sociais, com muita agitação e destruição.

Se com a ciência e a tecnologia se consegue, actualmente, minorar o efeito destrutivo dos terramotos provocados pela natureza, na sociedade é ao contrário.Os actuais lideres do mundo ocidental, através das ciências políticas, económicas e sociais, fazem destruições controladas dos direitos de quem trabalha para, mais facilmente, criar novos modelos de organização do trabalho, que permitam maior rentabilidade do capital e aumentaras desigualdades.


Ensina-nos a História, que só se deve extrair conclusões das consequências de grandes acontecimentos sociais, depois de se ter analisado ,exaustivamente, todas as causas conhecidas.
Condenar apenas os factos, no caso presente, o último Acordo de Concertação Social e a UGT, sem reflectir sobre as alterações económicas e sociais ocorridas em Portugal, na Europa e no actual Mundo Globalizado, é uma crítica fácil e só pode considerar-se como um apelo à contestação social e à revolta, de forma errada e inconsequente.

Contrariando uma ideia muito generalizada no nosso país, a globalização actual não está apenas associada a aspectos económicos e sociais negativos pois, se assim fosse, não se tinha generalizado e consolidado como aconteceu, e alterado as relações de poder entre as principais potências do Mundo. Uma das consequências, mais relevante, da globalização, é o mundo virtual das comunicações. Os Média em geral e a Internet em particular, permitem hoje que qualquer pessoa, com acesso a estes meios, saiba quase tudo o que se passa na sua terra, no seu país ou no mundo.

Tentar isolar o Acordo Social e o contexto em que Portugal se encontra,da situação dos outros países europeus, apesar da informação disponível,só pode levar a conclusões erradas. Quando começou a chamada crise das dívidas soberanas, muitos autores negaram que a crise era internacional e atribuíam toda a culpa da situação do país ao Sócrates afirmando, inclusive, que mudando de governo, tudo se resolveria.

Pouco tempo depois, já as medidas que, no último governo do PS, eram rotuladas de excessivas, segundo as oposições,agora, com o governo de direita, são consideradas insuficientes para superar a crise e, por isso, cortaram vencimentos, reformas e aumentaram os impostos mas, apesar de todas as medidas, os juros da dívida pública continuam a bater recordes!

No último quarto de século o Mundo mudou muito. Depois da queda do Império Soviético, os Estados Unidos da América, consolidaram o seu poder e emergiram como única potência. Durou poucos anos. As guerras que provocou e a emergência de novas potências económicas, tornou o capitalismo americano fragilizado. Para tentar superar a crise, sem afectar o mercado e os grandes grupos financeiros, permitiram que fossem constituídos os mais variados fundos e sistemas de economia virtual, tipo casino, que desembocou na grande crise de 2008.

Como todos sabemos, a Europa, Portugal incluído, também foi afectada, particularmente os Bancos e o sector financeiro, o que provocou uma crise económica generalizada e um aumento do desemprego assustador. Desde então, temos vivido continuamente em crise por razões relacionadas com a nossa moeda-EURO. É nestas razões e, principalmente, nos erros, roubos e crimes que se cometeram no nosso país, no último quarto de século,que temos que encontrar as justificações para a situação em que o país se encontra. São muitos os factores que levaram à intervenção do FMI, BCE e UE, ou seja, à nossa perda de soberania (temporária?) e que obrigou, ou, permitiu o acordo, subscrito pela UGT, que é um autentico terramoto para o mundo do trabalho.

Deveremos atribuir à UGT a principal responsabilidade, por ter assinado um acordo social que legitima o corte de direitos e regalias ao mundo do trabalho? Não terá a CGTP, maiores responsabilidades ao abandonar as negociações? Ou estarão as duas centrais sindicais, profundamente fragilizadas e sem apoio da generalidade dos trabalhadores, como ficou demonstrado na última greve geral e, consequentemente, sem capacidade negocial perante um governo que apenas valoriza o mercado?

Quase tudo o que li e ouvi sobre as negociações e, em especial, sobre o acordo, desvaloriza o que é relevante - O MEMORANDO DA TROIKA e a consequente soberania limitada em que nos encontramos. As responsabilidades que o Estado Português assumiu, ou, lhe foram impostas para não cair na banca rota, traçou claramente o futuro imediato dos portugueses. Ao ficar-mos sobre tutela, limitaram-nos os direitos e definiram os nossos deveres, entre os quais as reformas assumidas no acordo, que fazem parte do Memorando.

A questão que não vi ser debatida, é a ousadia do governo que, por opções ideológicas, impôs medidas além do memorando, para o mundo do trabalho, enquanto ao mesmo tempo, não assume nem implementa as reformas das Autarquias e do Estado, não combate as organizações neo-corporativas, nem desenvolve as reformas relacionadas com a necessidade de concorrência, apesar de tudo isto também estar estabelecido no memorando.

Em síntese, estão os trabalhadores portugueses e, ou, as organizações sindicais, em condições de lutar/escolher entre o bom e o mau? Entre o bom e o menos bom? Ou as condições da crise económica e social com o desemprego a bater recordes, apenas podem negociar/aceitar o menos mau para que não lhe seja imposto o péssimo? Penso que estamos na situação da última hipótese.

Como trabalhador, com mais de quarenta anos de actividade em sindicatos e comissões de trabalhadores, tenho plena consciência que o acordo, em vários aspectos, coloca os trabalhadores em piores condições que no período do Marcelo Caetano: retira direitos, acaba com a segurança e permite toda a flexibilidade aos patrões!

Como Jurista, continuo a pensar que o Código do Trabalho, Lei N.º99/2003, de 27 de Agosto e, mais ainda, a sua revisão pela Lei N.º 7/2009, de 12 de Fevereiro, tem todas as condições e flexibilidade necessária, para os Empresários poderem contratar sem receios do futuro com o mínimo de segurança para os trabalhadores. Todavia, para a generalidade dos patrões não serve: eles só querem trabalho sem direitos como no tempo do fascismo.

Finalmente,afirmo com toda a convicção, que as medidas estabelecidas no Acordo de Concertação Social, estão em contradição com a letra e o espírito das normas e dos princípios constitucionais, da Constituição da Republica Portuguesa. Contudo e em aparente contradição, estou solidário com a UGT e com o Secretário Geral do PS, António josé Seguro. Estamos num estado de excepção, em que o interesse público nacional se sobrepõe a outros interesses, consequentemente, a questão em apreço é Política e não Constitucional!

sábado, 14 de janeiro de 2012

Mais Uma Tentativa De Apagar O Nome Dos Operários Da História Do "Maoismo"!




Ao longo dos anos tenho assistido aos mais variados atropelos à verdade histórica do movimento operário português e particularmente, da relevância que tiveram alguns operários na criação e desenvolvimento das organizações Marxistas Leninistas, ou, como muitos continuam a gostar de referir, movimento Maoista.

Continuamente, os estudantes universitários de então, hoje quase todos Professores Doutores, vão reivindicando para si a importância que tiveram aquelas organizações, omitindo sistematicamente o papel dos operários que pertenceram a cada uma das organizações, ao mesmo tempo que valorizam apenas a importância dos intelectuais.

O facto de muitos dos " ex estudantes comunistas Marxistas Leninistas" terem regressado às faculdades, completado as suas licenciaturas e transformando-se em quadros do regime democrático, com ligações ao poder e acesso aos meios de comunicação social, enquanto os operários continuaram a trabalhar para viver, por vezes sobreviver e cada vez mais marginalizados,não significa que não tenham passado, história.

Assisti-mos ao desmoronamento do mito do nosso papel na sociedade, da nossa subalternização nas organizações sindicais e políticas, não podemos aceitar que omitam tudo quanto fizemos, os riscos que corremos e, acima de tudo, o nosso contributo para a implantação da democracia, ainda que tenhamos lutado em nome da revolução e da ditadura do proletariado.

Estes considerando iniciais, são feitos a propósito de um artigo do jornal Público, "Trova de um vento que passou" , tendo por base a Tese de Doutoramento de Miguel Cardina. Possivelmente pelos conhecimentos que tem, ou condicionado pelos intelectuais "ex maoistas", o jornalista João Bonifácio, entendeu auscultar como "militantes de há 40 anos" Fernando Rosas, Hélder Costa e Irene Pimentel, super badalados e citados e, ainda, Aurora Rodrigues,Joaquim Pinto da Silva e Manuela Juncal, relativamente desconhecidos.

Não lhe terá passado pela cabeça, quando cita os lugares onde houve implantação das organizações m. l.,que poderia haver operários, ou reformados ex operários, que tivessem também interesse em dar as suas versões da história desse tempo? Ou será que também pensa, que esses antigos operários eram uns "mentecapto", ignorantes e subservientes dos intelectuais? Ou defende, que os ex estudantes tem nomes e os operários eram apenas uma amalgama de pessoas desconhecidas e sem influencia no seio da sua classe?

Não pretendendo, por agora, apelar às minhas memórias de militante sindical e político, particularmente, à minha participação nas organizações Marxistas Leninistas, nem citar o nome dos operários que comigo participaram ou conheci nas organizações, porque não o farei sem a sua autorização, não posso no entanto aceitar, mais uma vez, que "a árvore genealógica" do Marxismo Leninismo de Portugal seja podada e cortado os "ramos" dos Intelectuais Operários!

Posso afirmar, que conheci e trabalhei politicamente, desde 1969 a 1975 e ainda depois, com dezenas de autênticos Intelectuais Operários, incluindo muitos do PCP e alguns do PS, com os quais trabalhei nos sindicatos e na Comissão Democrática Eleitoral - CDE. Creio, que ao longo da minha vida, conheci centenas de operários conscientes dos seus direitos e combativos pela causa da revolução e da democracia. Ainda que só algumas dezenas tivessem formação ideológica, por impossibilidade de acesso ás livrarias de Paris, os Intelectuais Operários que refiro, tinham uma experiência de luta, bibliotecas e, como consequência, um conhecimento político muito superior aos ex estudantes, com uma ou outra excepção.

Tenho muitas dúvidas que o tipo de artigos do Publico e outros já publicados, assim como vários livros acerca destes temas, despertem muito interesse na generalidade das pessoas, ou contribua para superar alguns dos problemas actuais da democracia em Portugal.

Por aquelas razões,apesar de ainda nos anos setenta e como autodidacta (tinha apenas com a 4ª classe), ter escrito e publicado um texto exaustivo- Que Fazer? - sobre a controvérsia intelectuais e operários, quando no início dos anos oitenta fiz a ruptura política e ideológica com o Marxismo Leninismo, entendi não escrever "memórias". O estudo que então fiz, anos antes da "queda do muro de Berlim",deixou-me plenamente consciente que as suas teses não eram cientificas, que se tinha adulterado a História e que no confronto com o sistema capitalista, este tinha ganho a guerra!

Coerentemente, entendi não continuar a gastar o meu tempo com uma ideologia que a história provou ser errada e, em contra partida, voltar a "por as mãos na massa" da militância, aderindo às teses da Social Democracia, filiando-me no PS, para continuar a luta pelo reforço da democracia, da liberdade, do progresso social e, principalmente, pela diminuição das desigualdades sociais.

Em síntese, ainda não sei se, e quando, vou escrever sobre a minha actividade política e sindical. Antes disso, quero reunir e eventualmente publicar ou tornar público no meu blog, tudo o que escrevi e publiquei em jornais regionais e na revista do Francisco Martins Rodrigues. Contudo, sempre que tenha conhecimento de artigos ou livros, em que se aborde temas relacionados com as ex organizações Marxistas Leninistas, que adulterem a História omitindo OS NOMES dos operários, Voltarei em defesa do passado e da honra de tantos homens operários, que muito deram à causa pública, inclusive, alguns, a própria vida!

Conheci e em certa medida trabalhei, com praticamente todos os lideres dessas organizações. Fiz parte da direcção de algumas delas. Tenho apontamentos minucioso sobre muitos ex militante e organizações. Tenho, finalmente, uma colecção completa dos jornais e revistas dessas organizações, como ainda muitos documentos internos sobre esse período e, particularmente, da tentativa de tudo unificar, meu principal objectivo após o 25 de Abril.

Falta-me... a convicção da necessidade, ou apenas da utilidade, de escrever sobre o passado, quando o presente tanto me preocupa ao constatar, depois de o ter previsto, que muitos dos direitos do mundo do trabalho, pelos quais toda a vida lutei...estão a ser omitidos, adulterados e muitos revogados, em nome de uma nova ordem politica e económica internacional!